segunda-feira, 7 de junho de 2010

CRÔNICA


OLHARES URBANOS
Um relógio na parede. O primeiro encontro
matinal. O olhar semi-serrado. Pelas pálpebras,
o flerte com a hora. Os raios do sol que passam
pelas frestas da janela se alongam, lambendo o
piso do quarto, os lençóis da cama e os rostos.
O banho. O café. O olhar sobre aquela que
ainda dorme. A saída e o caminhar por entre
árvores - tão poucas; entre pessoas - tão
distantes; entre automóveis - tão frios.
Um banco de ônibus. “Olha o troco!”
Estranhos dividem o mesmo espaço, o mesmo
quadro; o mesmo olhar sobre a mesma paisagem,
diariamente. Rostos familiares, asseados,
sonolentos, buscam um motivo que os
impulsione, que os faça perseverar naquela
rotina. Trocam-se olhares. Banco duro e vazio
do lado da janela. “Com licença?” Desconforto
democratizado. Olhos tombam vencidos ainda
pelo cansaço do dia anterior. Olhar a hora. “Que
horas, por favor?”
O canto dos pássaros, o som do vento que
assanha as árvores. O riso das crianças. Um olhar
para o passado. A cidade que cresce. Não, a
cidade que incha; que se derrama e que invade.
O olhar sobre o presente. Mas não um
presente qualquer, o presente do modo
subjuntivo: “que eu olhe um mundo melhor”. O
canto das buzinas, o som dos motores, as vozes
que reclamam. Olhando o meu mundo. O banco,
a janela emoldurando a paisagem de ontem, de
amanhã e, quem sabe, do mês que vem; do ano
que vem. Os olhares não se cruzam mais. Viraram
cativos dos devaneios, das leituras ou
simplesmente do sono. A luz, o sol e o calor
participam da leitura. Eu, o sol e entre as mãos,
um Fernando Sabino com folhas soltas, gastas e
amareladas. O olhar que passeia pelas estradas
literárias, pelos campos de verbos, sujeitos e
predicados sempre bem iluminados pela manhã,
numa terra de sol, de luz e de mar. A minha
terra.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

DETALHES ... pequenos ou não!

CRÔNICA

SAUDADES DOS OLHOS AZUIS
Não pense que vou escrever sobre um amor
não correspondido, tipo novela mexicana. Vou
escrever sobre um amor, mas um amor à arte de
cantar e a de ouvir, porque não?
Hoje, dia 14 de maio, comemora-se o
aniversário da morte – comemorar o aniversário
da morte!? – de um dos maiores cantores deste
velho e maltratado mundo.
Bem, não sabem ainda de quem falo? Talvez
vocês não saibam nada sobre a história da música
ocidental dos anos 40 para cá. Está certo,
ninguém é obrigado a saber; mas todos aqueles
que apreciam a boa música – pois só existem
dois tipos de música, a boa e a ruim – devem ter
o discernimento para saber quem é o mocinho
ou quem é o vilão no mundo da arte. Ok, ok, já
chega de rodeios. Estou falando de Francis Albert
Sinatra, o velho e bom Frank!
Garoto pobre, de um bairro pobre (Hoboken)
em Nova Jersey, Estados Unidos. Sabe como é,
aquela velha história de começar do nada e
brilhar para o mundo.
Era fã do maior cantor na sua época (Bing
Crosby) e sonhava em cantar como ele. Depois
de assistir a um de seus shows decidiu que não
poderia ser outra coisa na vida além de cantor, e
foi à luta. Deu no que deu. Foi um dos maiores
vendedores de discos e conquistador de mulheres
(sim, elas: Marilyn Monroe, Ava Gardner,
GraceKelly, Mia Farrow, etc e etc... quer mais!?),
principalmente no auge dos anos 50, época que
a sétima arte tinha mais estrelas que o céu do
interior de Goiás. Mas isso é uma outra história.
Para falar sobre Sinatra seriam necessárias
muitas linhas, folhas, livros. Vamos então
aproveitar o The Voice, pois ouvir Sinatra é
melhor que falar sobre Sinatra. É presentear, em
um primeiro momento o ouvido e, no segundo,
a alma, já que era com ela que ele cantava. Então
só resta lamentar sua partida e dizer que desde
maio de 1998, o mundo ficou – e continua, para
azar dos amantes da boa música – mais
desafinado.

SAIGON ...fica bem alí!