sábado, 10 de abril de 2010

UM JORNALISTA LITERÁRIO


Terminei. Desde de quando me deparei com os primeiros textos de jornalistas que escreviam inspirados pela pena de um estilo chamado nos anos 60 de jornalismo literário - ou newjornalism, como era chamado nos EUA, de onde veio - que a identificação foi imediata. Sim, eu terminei a última página de uma das bíblias deste estilo tão esquecido hoje, tanto pelos editores quanto pelos próprios jornalistas. Trata-se de Fama&Anonimato, do jornalista estadunidense Gay Talese. É realmente um banho de como se deve escrever sobre qualquer assunto. Não vou explicar e nem debater o livro, o autor ou seu estilo (ou nosso, se me permitem!). Vou dizer que os dois anos que venho vivendo em redações de televisão, ajudando a fazer um telejornalismo que cada dia mais vomita informações pouco trabalhadas e pouquíssimo originais no colo de telespectadores, não me afastei um milímetro se quer do que acredito ser um bom jornalismo. Refiro-me àquele jornalismo que manda às favas o tempo, a velocidade da apuração (apuração veloz (?), que paradoxo incomodo), as entrevistas feita por telefones, as pautas "compradas" das assessorias etc. 
Vida longa ao Jornalismo Literário, aquele que faz o repórter sujar os sapatos e suar (literalmente) a camisa, bem longe dos ares condicionados das redações.

PRODUTORES X PRODUTORES


Há produtores e produtores. Acabo de ler um livro sobre tele-jornalismo (Jornalismo de TV/Luciana Bistane e Luciene Bacelar/Editora Contexto). Lá, uma das autores lembra dos tempos em que produtor ia às ruas para garimpar pautas. Bem, estamos longe mesmo disso. Hoje, produtores, no aconchego dos aparelhos de ar-condicionado, da internet e do telefone, acabam ficando míopes quando o assunto é trabalho em equipe. Não é raro o repórter sair com uma pauta do tipo " Caro repórter, não marcamos nada, mas como você é competente..." Em outras palavras, "se vira que você não é quadrado!" Aí, é fazer as apurações, as entrevistas, a produção de imagem, a busca por entrevistados etc. Voltar sem a pauta é pecado mortal. Certa vez, uma das produtoras resolveu sair com a equipe e percebeu quantos buracos tinha na pauta que ela havia produzido. Me lembro de uma das aulas de tele-jornalismo na faculdade quando a professora, profissional de renome no meio jornalístico do Ceará, lembrou que produtor não é apenas para agendar entrevista. Tem que pensar até se vai chover ou não no dia da pauta. É isso.

TENSÃO LEVADA PRA CASA



Hoje foi um dia tenso. Tive que fazer duas matérias na Assembléia Legislativa do Ceará. O local estava lotado, com mais de uma centena de pessoas entre populares, parlamentares estaduais e federais, além de um senador e o Governador do Estado. O motivo era a discussão sobre o apóio do Ceará no projeto da transposição do Rio São Francisco. Já cheguei atrasado, pois vinha de uma outra pauta. Portanto perdi as principais entrevistas. Então tive que sair a cata de um ou outro político. Corro pra lá e pra cá. A apreensão de sair dali sem as benditas sonoras me angustia. Aí é que entra o autocontrole, a capacidade de perceber que é possível fazer e confiar no seu “taco”. E assim foi, até o momento em que o Governador iria sair, se eu o perdesse, não teria outra chance e perderia minhas pautas. A tensão é grande. É claro que falo por mim, mas no momento eu sentia que o ar irradiava a mesma coisa. Não era apenas eu que esperava com ansiedade o entrevistado. Havia muitos colegas com microfone e gravadores em punho. Mas era eu que estava na ponta do semicírculo. Era eu que tinha que fazer a primeira abordagem, a primeira pergunta. “Eu não posso vacilar. Não posso dar uma gaguejada se quer. Talvez eu nem respire na hora”. Isso era mais ou menos o que eu pensava na hora. Então veio o homem e... Ataquei o entrevistado com uma pergunta, com duas e três e depois de tudo terminado, soltei o ar ao mesmo tempo em que falava com o meu câmara: “Missão cumprida, chapa!”.
Mas confesso que a tensão foi tão grande naquelas duas horas e principalmente nos três minutos finais que carrego o peso dela sobre minhas costas – literalmente – enquanto eu escrevo este texto, já passadas mais de doze horas do trabalho terminado. Sim, vida de repórter de carne, osso e nervos.

ENGOLINDO EM SECO


Imagine você com sua equipe (cinegrafista, motorista e auxiliar) a uma e meia da tarde, levando em conta que os trabalhos começaram pontualmente as oito da manhã. Imagine também que o humor deles não é dos melhores por estarem na sala de espera do Palácio do Governo do Estado, há pelo menos uma hora e meia, no intuito de entrevistar o chefe da casa civil. Muito bem. Agora pense na cara do repórter que aqui escreve, quando o tal chefe da casa civil vira pra você e diz: "Não, não, eu não vou dar entrevista, não".(engolindo seco) "Mas secretário, nós estamos aí fora há uma hora e meia esperando o senhor!" (sorrisinho torturante do outro lado da mesa) "É, mas se eu soubesse que a entrevista era pra TV, eu não tinha marcado".(engolindo seco, de novo) "Mas secretário, eu quero fazer apenas uma pergunta!...". 
Em países de primeiro mundo, é o governo que corre atrás da imprensa quando o assunto é investimento público (era o caso), no Brasil é o contrário. 

ps.: bem, consegui arrancar uma meia dúzia de palavras do homem. Ele respondeu às minhas perguntas com a comodidade de quem sofre com problemas de flatulência diante de uma comissão de distintas e recatadas senhoras católicas.

BEIRANDO A LOUCURA! SERÁ?


Quando você estiver em uma redação, três e meia da tarde, depois de ter passado por quatro pautas, das oito ao meio dia...

Depois de ter chegado com uma fome louca e ainda ter que escrever as benditas pautas o mais rápido, antes que os editores façam de seus ouvidos uma zona de testes nucleares, com cobranças do tipo "Já terminou, já terminou... hém?" ou "Vamo, vamo, vamo que hoje ta tudo atrasado!" (para eles tudo está sempre atrasado)...
Diante de tudo isso, se você atender ao telefone dizendo, em vez de alô, "SONORA ?!" – como aconteceu certa vez comigo – não se espante, a loucura não te pegou, é apenas o cansaço mental, duro, aliás, de se vencer.